O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o USDA, pretende testar novas imagens de satélite, modelos de cultura e inteligência artificial na elaboração de estimativas agrícolas. O projeto-piloto foi divulgado nesta terça-feira (1º) e deverá funcionar em conjunto com as pesquisas tradicionais realizadas com produtores.

A iniciativa tem impacto além das lavouras norte-americanas. Relatórios do USDA sobre área plantada, produtividade, estoques e produção movimentam as cotações de soja e milho em Chicago. Essas variações influenciam contratos, preços de exportação e decisões comerciais no Brasil, inclusive em Rio Verde, Jataí e Mineiros.

O que deve mudar

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Segundo as informações divulgadas, o USDA pretende combinar quatro fontes principais:

• pesquisas respondidas por produtores; • imagens de satélite e ferramentas geoespaciais; • modelos agronômicos de desenvolvimento das culturas; • inteligência artificial e aprendizado de máquina.

O objetivo é melhorar as estimativas de área e produtividade, reduzir solicitações repetidas de informações aos agricultores e aumentar a transparência sobre metodologia, taxa de resposta e limitações dos levantamentos.

Não se trata, por enquanto, da substituição completa das pesquisas de campo. A proposta é integrar diferentes evidências e comparar os resultados durante o piloto.

Satélite já é utilizado

O Serviço Nacional de Estatísticas Agrícolas dos Estados Unidos, o NASS, já utiliza sensoriamento remoto para complementar estimativas de área. A camada oficial Cropland Data Layer identifica culturas com imagens de satélite e produz informações georreferenciadas sobre o uso agrícola do território.

A estratégia de inteligência artificial do USDA para 2025 e 2026 também prevê ampliar a análise automatizada de imagens de satélite, drones e sensores terrestres para acompanhar a saúde das culturas, prever produtividade e apoiar decisões públicas.

A novidade está na ampliação e na integração dessas ferramentas ao processo estatístico que gera relatórios acompanhados pelo mercado.

Inteligência artificial não elimina revisões

Modelos dependem da qualidade e da atualidade dos dados utilizados. Nuvens, resolução das imagens, classificação incorreta de culturas, mudança de manejo, clima extremo e falta de informações de campo podem alterar o resultado.

Um algoritmo também pode reproduzir limitações existentes nos dados usados para treiná-lo. Por isso, estimativas produzidas com inteligência artificial continuam sujeitas a intervalos de incerteza, ajustes metodológicos e revisões posteriores.

O próprio USDA informou que pretende divulgar metodologia, taxa de resposta e limitações. Essa transparência será essencial para o mercado avaliar se o novo processo realmente melhora a precisão.

Por que isso interessa a Goiás

Quando um relatório aumenta ou reduz a expectativa de produção dos Estados Unidos, Chicago pode reagir imediatamente. Entretanto, a cotação recebida pelo produtor goiano também depende do câmbio, prêmio, base regional, frete, demanda das esmagadoras e condições contratuais.

O relatório internacional é uma referência importante, mas não deve ser utilizado isoladamente para decidir venda, barter ou fixação de preço.

Uma decisão comercial mais segura combina:

• relatórios do USDA e da Conab; • condições reais das lavouras; • câmbio e prêmios de exportação; • cotações do mercado regional; • custo de produção e necessidade de caixa; • contratos já firmados e capacidade de armazenagem.

O piloto deverá ser acompanhado

A entrada de satélites e inteligência artificial pode tornar as estimativas mais rápidas e reduzir lacunas provocadas por baixa resposta às pesquisas. Também pode aumentar a volatilidade caso o mercado interprete mudanças metodológicas como alterações reais de oferta.

O ponto principal para o produtor é distinguir dado, estimativa e certeza. A tecnologia melhora ferramentas de análise, mas não transforma previsão de safra em garantia de preço ou produtividade.

Fontes: Reuters/Notícias Agrícolas, “USDA vai testar satélites e inteligência artificial nas estimativas de safra”, 01/09/2026; USDA, Estratégia de Inteligência Artificial 2025–2026; USDA/NASS, Cropland Data Layer e Crop Sequence Boundaries.

Reportagem em acompanhamentoEsta publicação poderá ser atualizada conforme a apuração avançar.