O Ministério da Agricultura e Pecuária recebeu da Embrapa um conjunto de 163 medidas para apoiar a gestão dos riscos associados ao El Niño na agropecuária. O trabalho contou com participação do Instituto Nacional de Meteorologia e considera a safra 2026/2027.

As recomendações procuram transformar informação climática em decisão operacional. Entre as medidas transversais divulgadas estão o monitoramento de previsões e dados meteorológicos locais, a utilização do Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), a diversificação espacial e temporal da produção, sistemas de integração, planos de contingência, manutenção da infraestrutura, dimensionamento da capacidade operacional, reserva financeira, seguro e registro dos eventos e impactos.

O número de medidas não deve ser lido como previsão de 163 problemas nem como confirmação de perda no Sudoeste Goiano. O efeito do fenômeno varia por região, época e atividade. A nota técnica serve como instrumento de preparação e busca consolidar uma política permanente de gestão de risco agroclimático.

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Zarc é ponto de partida, não decisão isolada

Para soja, milho e outras culturas, o produtor precisa conferir a portaria vigente do Zarc correspondente ao município, à cultura, ao tipo de solo, à cultivar e ao ciclo utilizado. Estar dentro do período indicado reduz risco estatístico, mas não substitui avaliação da umidade real, previsão de curto prazo, capacidade de plantio e recomendação técnica.

Plantar apenas para cumprir uma data, sem registrar as condições verificadas, pode fragilizar a explicação posterior. O ideal é conservar dados locais de chuva e temperatura, fotografias georreferenciadas, mapas, laudos agronômicos e a justificativa da decisão de plantar, adiar, replantar ou alterar o manejo.

Seguro, Proagro e crédito possuem regras próprias

Evento climático não gera pagamento automático. Na apólice de seguro, é necessário conferir o risco coberto, a franquia, os procedimentos de comunicação, a vistoria e as exclusões. O Proagro também possui enquadramento e comprovação próprios.

No crédito rural, mudança de cultura, talhão, cronograma ou destinação do recurso não deve ser tratada como detalhe informal. Quando relevante, a instituição financeira precisa ser comunicada, e o produtor deve guardar a resposta. O mesmo vale para contratos de venda futura: força maior, tolerância, prazo, qualidade e consequências da falta de entrega dependem do que foi pactuado e da prova do caso concreto.

A trilha documental começa antes do dano

Um laudo preparado contemporaneamente à decisão possui função diferente de uma justificativa elaborada somente depois da perda. Para organizar o dossiê da safra, convém reunir:

- Zarc e calendário aplicáveis à área; - análise do solo e da umidade; - recomendação técnica datada; - sementes, notas fiscais e receituários; - mapas e fotografias georreferenciadas; - dados meteorológicos locais; - registros das operações executadas; - comunicação com banco, seguradora e comprador; - protocolo de aviso de sinistro, quando necessário.

Gestão climática não elimina a variabilidade do tempo, mas reduz decisões improvisadas. Quando o risco se transforma em disputa contratual ou pedido de cobertura, a documentação permite reconstruir o que aconteceu e demonstrar quais medidas foram adotadas.

Reportagem em acompanhamentoEsta publicação poderá ser atualizada conforme a apuração avançar.