Em uma eleição com 13 pedidos de candidatura à Presidência, o agronegócio aparece de maneiras muito diferentes nos programas: há planos com capítulos inteiros sobre política agrícola, documentos que priorizam reforma agrária e agricultura familiar e registros sem proposta setorial detalhada.
O Sudoeste em Campo consultou o DivulgaCandContas e os documentos disponibilizados no Portal de Dados Abertos do TSE. A apuração foi fechada às 20h20 de 23 de agosto de 2026, horário da última atualização exibida pelo sistema. Naquele momento, os 13 nomes apareciam como “concorrendo”, mas todos os pedidos de registro estavam “aguardando julgamento”.
O levantamento não é ranking, recomendação de voto nem análise de viabilidade fiscal ou jurídica. Ele resume compromissos escritos ou divulgados em canal oficial de campanha. Menção genérica não foi transformada em promessa específica e, quando um documento não detalhou medidas para o agro, essa ausência foi mantida como informação.
Clariana Barão (DC, 27)
O plano apresentado por Clariana Barão tem 15 páginas e organiza a atuação federal em seis capítulos. Não há capítulo sobre agro, agricultura, pecuária, política rural ou reforma agrária. O texto traz diretrizes gerais de infraestrutura e logística - rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e cabotagem -, expansão da conectividade e crédito para pequenos negócios, mas sem recorte específico para produtores rurais. Por isso, não foi localizada promessa setorial detalhada para o agronegócio no documento registrado.
Edmilson Costa (PCB, 21)
O programa de Edmilson Costa propõe uma reforma agrária popular. O documento prevê desapropriação sem indenização de latifúndios improdutivos, áreas com trabalho escravo e propriedades que não cumpram função social. Também promete fomentar cooperativas, produção agroecológica, armazenagem, escoamento e compras públicas para escolas, hospitais e restaurantes populares. Em outra frente, defende recompor estoques reguladores pela Conab, ampliar compras da agricultura familiar, revisar o Código Florestal e reduzir a escala da atividade pecuária. As medidas estão nas páginas 6, 8 e 9 do plano.
Escritor Augusto Cury (Avante, 70)
O registro de Augusto Cury reúne dois anexos de proposta. No eixo “Agricultura 4.0”, o candidato fixa como objetivo dobrar a produção de alimentos em dez anos, com investimento em pesquisa, irrigação, logística, agricultura de precisão, bioinsumos e integração lavoura-pecuária-floresta. Para pequenos produtores, promete ampliar crédito, assistência técnica, seguro rural, mecanização e acesso a mercados. O texto também propõe elevar a cobertura do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural, incentivar armazéns por benefícios fiscais e parcerias e ampliar o cooperativismo. As medidas centrais aparecem nas páginas 47 a 50.
Flávio Bolsonaro (PL, 22)
As diretrizes de Flávio Bolsonaro prometem ampliar o seguro rural, criar ferramentas de securitização e reorganização das dívidas do setor e aumentar a capacidade de armazenagem. O plano defende produção nacional de fertilizantes a partir de potássio e fosfato, regularização e titulação do pequeno proprietário rural e expansão da área irrigada, com polos no Matopiba e no semiárido. Também propõe consolidar o Cadastro Ambiental Rural, ampliar pagamento por serviços ambientais e articular incentivos do Plano Safra à produção de biomassa. O capítulo específico está nas páginas 53 a 55.
Hertz Dias (PSTU, 16)
O programa de Hertz Dias defende retirar créditos e subsídios públicos do grande agronegócio e direcioná-los aos pequenos e médios produtores. Entre as medidas estão crédito público direto a juros baixos, subsídios e isenção tributária ao pequeno produtor, produção nacional de máquinas agrícolas e incentivo à agricultura popular e agroecológica. O documento também propõe desapropriar áreas de especulação fundiária e expropriar, sem indenização, grandes propriedades rurais e empresas do agronegócio, transferindo o controle aos trabalhadores. As propostas concentram-se nas páginas 15 a 18.
Lula (PT, 13)
O programa de Lula promete ampliar os recursos do Plano Safra e manter juros compatíveis com a rentabilidade da atividade, priorizando máquinas, equipamentos, irrigação e tecnologia. O texto propõe fortalecer o seguro rural e criar um instrumento para perdas sistêmicas em quebras severas de safra. Também prevê ampliar a produção nacional de fertilizantes e bioinsumos, fortalecer a Embrapa, recuperar pastagens degradadas, apoiar a rastreabilidade bovina e expandir a conectividade rural. Para a agricultura familiar, promete reforçar Pronaf, Garantia-Safra, ATER, PAA, agroecologia e crédito fundiário. O núcleo setorial ocupa as páginas 59 a 63.
Pablo Marçal (PRTB, 28)
Na página de Pablo Marçal no DivulgaCandContas, consultada no fechamento deste levantamento, não aparecia o botão “Propostas” nem um anexo de plano de governo. Uma reportagem do SBT News informou que um documento de 28 páginas teria sido protocolado em 18 de agosto. Como o arquivo não estava acessível no registro oficial consultado e não foi localizado em canal oficial da campanha, o levantamento não atribui promessa específica para o agro. Isso não significa que o candidato jamais tenha se manifestado sobre o tema; significa apenas que não havia material primário verificável sob o critério adotado.
Renan Santos (Missão, 14)
O registro de Renan Santos indica proposta de governo. Para detalhar o recorte rural, o levantamento consultou também a página oficial “As propostas, palavra por palavra”. O candidato promete produzir fertilizantes nacionais de fosfato e potássio e verticalizar as cadeias para exportar alimentos com marca e maior valor agregado. Também defende revogar a Nota Técnica nº 4 do Ministério do Desenvolvimento Agrário, não criar novos assentamentos até que os atuais sejam produtivos e proteger obras como a Ferrogrão, além de investir em rodovias ligadas ao escoamento do agro.
Ronaldo Caiado (PSD, 55)
O plano de Ronaldo Caiado propõe um Plano Safra plurianual de cinco anos, fundo garantidor para crédito agrícola privado e um sistema permanente de seguro rural com participação pública e privada. Também prevê seguros paramétricos, seguro de renda e regulamentação do Fundo de Catástrofe. Na infraestrutura, promete programa decenal de logística do agro, ampliação da armazenagem e prioridade a corredores como Ferrogrão, Norte-Sul, Fiol e BR-163. O documento ainda prevê executar o Plano Nacional de Fertilizantes, fortalecer a Embrapa, validar o CAR, ampliar rastreabilidade e abrir mercados. As principais propostas estão nas páginas 22 a 24.
Rui Costa Pimenta (PCO, 29)
O documento de Rui Costa Pimenta se apresenta como “programa de luta”, e não como uma lista convencional de promessas. No campo, defende reforma agrária com expropriação do latifúndio, assentamento imediato de pessoas sem terra acampadas e demarcação e posse das terras indígenas. O programa também propõe ocupar latifúndios para produção de alimentos e reconhece o direito de autodefesa e armamento para trabalhadores rurais e indígenas. As medidas aparecem na página 4.
Samara (UP, 80)
O programa de Samara inclui a reforma agrária entre as transformações estruturais defendidas pela candidatura. Entretanto, o documento não apresenta capítulo próprio de política agrícola nem detalha instrumentos como crédito rural, seguro, armazenagem, defesa sanitária ou pesquisa agropecuária. Assim, a proposta identificada para o campo é uma diretriz geral de reforma agrária, sem metas, desenho operacional ou cronograma setorial no material analisado.
Veterinário Wilson Grassi (Democrata, 35)
O plano de Wilson Grassi dedica um eixo à agropecuária, sanidade e comércio exterior. A proposta inclui recompor o serviço veterinário oficial, manter status sanitários e acelerar a rastreabilidade individual de bovinos e búfalos, com apoio financeiro ao pequeno e médio produtor que antecipar a identificação. Também promete assistência técnica e crédito em condição melhor para adoção de boas práticas de bem-estar animal, crédito simplificado para agricultura familiar, ATER pública com metas regionais e prioridade à produção local nas compras de alimentação escolar. O eixo ocupa as páginas 32 e 33.
Zema (Novo, 30)
O plano de Romeu Zema propõe um fundo privado com aportes públicos e privados para cobrir eventos climáticos, pragas e oscilações de mercado. Defende parcerias privadas para barragens, irrigação, rodovias, ferrovias, portos e armazenagem; abertura à importação de fertilizantes e defensivos e destravamento da produção mineral nacional. O texto promete ampliar capital privado e internacional em pesquisa agropecuária, reorientar a Embrapa para inovação aplicada, agilizar títulos rurais e consolidar o porte de armas em toda a extensão da propriedade rural. O capítulo está nas páginas 43 a 46.
O que se repete - e onde estão as diferenças
Crédito, seguro rural, logística, armazenagem, fertilizantes e tecnologia aparecem em vários programas, mas com desenhos distintos. Lula, Caiado, Flávio Bolsonaro, Augusto Cury, Wilson Grassi e Zema apresentam instrumentos de financiamento, seguro ou apoio produtivo; Caiado propõe um Plano Safra de cinco anos, enquanto Lula promete ampliar o modelo atual. Cury fixa metas de expansão produtiva; Flávio e Zema enfatizam segurança jurídica, irrigação e parceria privada.
Na outra direção, Edmilson Costa, Hertz Dias, Rui Costa Pimenta e Samara colocam a reforma agrária e a crítica à concentração fundiária no centro, com graus diferentes de detalhamento. Edmilson e Hertz incluem expropriações sem indenização; Rui propõe expropriação do latifúndio; Samara registra a reforma agrária como diretriz, sem detalhar instrumentos. Clariana Barão não apresenta uma política agropecuária específica no plano, e o registro de Pablo Marçal não disponibilizava anexo verificável no fechamento.
Como pedidos de candidatura e documentos podem ser atualizados durante a campanha, este levantamento deve ser lido como um retrato datado de 23 de agosto de 2026. O Sudoeste em Campo atualizará a reportagem se o TSE alterar a situação dos registros ou disponibilizar novas versões dos planos.
Fontes: DivulgaCandContas/TSE, Portal de Dados Abertos do TSE, planos de governo registrados e material oficial de campanha. Consulta encerrada em 23 de agosto de 2026, às 20h20.
SUDOESTE EM CAMPO