O planejamento da soja 2026/2027 começou com um alerta direto ao produtor do Sudoeste Goiano: alta produtividade, sozinha, pode não ser suficiente para gerar lucro. Em entrevista repercutida pelo Rio Verde Rural nesta quinta-feira (27), dirigentes da Aprosoja Goiás apresentaram dois cenários de custo que ajudam a dimensionar a pressão sobre a margem.

No primeiro cenário, com a soja a R$ 115 por saca, o custo operacional ultrapassaria 58 sacas por hectare, sem incluir arrendamento. Essa relação representa desembolso superior a R$ 6.670 por hectare apenas para a operação produtiva.

O segundo cenário usa uma referência de custo direto entre 55 e 56 sacas por hectare e acrescenta aproximadamente 20 sacas pelo uso de uma boa área arrendada em Rio Verde. O total chega à faixa de 75 a 76 sacas por hectare. Foi desse segundo cálculo que surgiu o número de cerca de 75 sacas.

ALERTAS DO SUDOESTE

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As duas referências não devem ser somadas nem tratadas como média estadual. Insumos, tecnologia, fertilidade, logística, produtividade esperada, preço de venda, juros e condições do arrendamento mudam de uma fazenda para outra.

Ponto de equilíbrio precisa ser calculado por propriedade

O ponto de equilíbrio indica quantas sacas precisam ser produzidas e vendidas para cobrir as despesas do ciclo. A conta começa pelo custo total por hectare e deve considerar, além dos insumos e das operações, encargos financeiros, armazenagem, frete, tributos, seguros, arrendamento e eventuais perdas.

Também é preciso separar produtividade de preço. Uma lavoura pode colher mais e ainda assim perder margem se parte da produção já estiver comprometida por CPR, barter, venda antecipada, arrendamento ou dívidas com vencimento concentrado logo após a colheita.

Por isso, a referência de 75 sacas funciona como alerta de gestão, não como previsão de resultado. Cada produtor precisa montar sua própria curva de custo e testar cenários de produtividade e preço antes de assumir novas obrigações.

Arrendamento “em sacas” exige atenção ao contrato

O Decreto nº 59.566/1966 estabelece que o preço do arrendamento rural deve ser ajustado em quantia fixa de dinheiro. O pagamento pode ser feito em produtos, desde que a quantidade corresponda ao valor do aluguel pelo preço corrente no mercado local na época da liquidação. A norma veda que uma quantidade fixa de frutos seja estipulada como o próprio preço do arrendamento.

Isso torna importante revisar contratos que simplesmente indiquem “20 sacas por hectare”, especialmente para verificar como o preço foi fixado, qual cotação será usada, quando ocorrerá a conversão, quem assume variações de qualidade e como funcionam vencimento e entrega. A análise depende da redação e da execução concreta de cada contrato.

CPR, barter e venda antecipada também consomem margem

A Cédula de Produto Rural representa promessa de entrega de produto rural e pode admitir liquidação financeira quando observadas as condições legais. Antes de emitir uma CPR ou fechar uma operação de barter, o produtor deve conhecer quantidade, qualidade, local e data de entrega, garantias, critérios de preço, encargos e consequências do inadimplemento.

O risco cresce quando diferentes compromissos incidem sobre a mesma produção esperada. Arrendamento, CPR, troca por insumos e venda antecipada precisam aparecer numa única projeção de fluxo de caixa para evitar que a soma das obrigações ultrapasse a capacidade real da lavoura.

O que organizar antes de negociar ou renegociar

Uma negociação consistente começa pela documentação contemporânea da safra. Entre os registros úteis estão planilha de custo por talhão, contratos de compra e venda, CPRs, operações de barter, contrato de arrendamento, notas fiscais, laudos agronômicos, mapas de área, histórico de produtividade, comprovantes de perdas, cronograma das dívidas e projeção de caixa.

Esses documentos ajudam a demonstrar a capacidade produtiva futura e a separar uma dificuldade temporária de liquidez de um problema estrutural. Também permitem negociar vencimentos e garantias com números próprios, em vez de depender apenas de uma média regional.

O alerta para Rio Verde, Jataí e municípios vizinhos é simples: em uma safra de margem estreita, plantar bem continua indispensável, mas contratar e comercializar bem será igualmente decisivo.

Foto: imagem ilustrativa. zoranzeremski/Envato Elements. Licença Comercial Vitalícia.

Nota editorial: conteúdo informativo. Os números são cenários de referência apresentados em entrevista e não substituem orçamento, assistência agronômica, contábil ou jurídica individualizada.

Reportagem em acompanhamentoEsta publicação poderá ser atualizada conforme a apuração avançar.