O avanço da agroindústria em Goiás está ampliando a procura por biomassa. Secadores de grãos, indústrias de etanol, esmagadoras de soja e outros empreendimentos usam cavaco de madeira como fonte térmica. Para o produtor, porém, a existência de demanda não transforma o eucalipto em investimento de retorno rápido ou garantido.

Em entrevista publicada neste domingo, o empresário Felipe Comelli, do Grupo Comber, afirmou que a procura aumentou e que o ciclo do eucalipto destinado à produção de cavaco costuma exigir de seis a sete anos. A fala oferece um retrato empresarial do mercado regional, não uma média oficial aplicável a todo projeto.

O prazo entre o plantio e a colheita muda a natureza da decisão. Antes de imobilizar área e capital, o produtor precisa saber quem poderá comprar, em qual raio, sob quais especificações e como preço, volume e custos serão tratados ao longo do tempo.

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## Demanda industrial não elimina o risco comercial

Segundo Comelli, uma tonelada de cavaco pode ser consumida para secar entre 50 e 60 toneladas de grãos. O indicador foi apresentado pelo entrevistado e pode variar conforme umidade do produto, eficiência do secador, qualidade da biomassa e tecnologia utilizada.

O mesmo cuidado vale para o alcance logístico. O empresário relatou casos de empresas procurando matéria-prima a 600 ou 700 quilômetros de distância. Isso indica escassez ou pressão de demanda em situações específicas, mas não prova que todo fornecedor conseguirá vender a longas distâncias com margem positiva.

Cavaco possui valor por unidade de volume relativamente baixo diante de muitos produtos agrícolas. Frete, carregamento, descarga, umidade e perdas podem consumir uma parcela relevante da receita. Quanto maior a distância, maior a necessidade de simular o valor líquido entregue — e não apenas o preço nominal informado pelo comprador.

## O contrato precisa conversar com um ciclo longo

Um plantio de seis ou sete anos não deve depender apenas de promessa verbal. Contratos de fornecimento ou instrumentos preliminares podem definir volume, padrão de qualidade, teor de umidade, ponto de entrega, responsabilidade pelo transporte, cronograma, forma de medição e penalidades.

O mecanismo de preço também merece atenção. Preço fixo por muitos anos pode se tornar incompatível com custos futuros. Índices genéricos, por outro lado, podem não acompanhar combustível, mão de obra, corte e frete. A cláusula de reajuste precisa indicar data-base, periodicidade, fonte do índice e tratamento de eventos extraordinários, sem prometer equilíbrio automático.

Se o comprador ainda estiver estruturando a unidade industrial, o produtor deve avaliar condições de início da operação, garantias, rescisão e destino alternativo da madeira. A existência de um memorando, cadastro ou manifestação de interesse não equivale necessariamente a compra firme.

## Manejo, fogo e mão de obra entram na conta

O eucalipto exige escolha adequada de material genético, preparo de solo, controle de formigas, tratos culturais, inventário, colheita e logística. Na entrevista, Comelli destacou ainda disponibilidade de mão de obra, mecanização e prevenção contra incêndios.

O risco de fogo merece plano próprio: aceiros, acesso para combate, manutenção, vigilância, treinamento e eventual seguro devem ser considerados antes do plantio. A cobertura securitária, quando disponível, precisa ser lida com atenção a riscos cobertos, franquias, obrigações de prevenção e exclusões.

Também é necessário verificar licenciamento, regularidade ambiental e localização das áreas. Regras podem variar conforme o empreendimento, o município, a estrutura de armazenamento e transformação e a intervenção necessária na propriedade.

## Antes de plantar, comece pelo mercado

Uma oportunidade real de biomassa nasce da conexão entre floresta, indústria e logística. O produtor deve projetar produtividade, mortalidade, custo do dinheiro, colheita, picagem, transporte e tributos; testar diferentes preços e distâncias; e manter alternativas comerciais.

O crescimento da demanda pode favorecer Goiás, mas não substitui estudo técnico nem contrato. Para um ativo que ficará anos no campo, a pergunta mais importante não é apenas quanto poderá valer o cavaco. É quem comprará, quando, onde e sob quais condições.

**Fonte principal:** entrevista com Felipe Comelli publicada pelo Rio Verde Rural em 31/08/2026.

**Nota editorial:** projeções, distâncias e relações de consumo atribuídas nesta reportagem são declarações do entrevistado. Resultados variam por projeto, localização, tecnologia, clima, manejo e contrato.

Reportagem em acompanhamentoEsta publicação poderá ser atualizada conforme a apuração avançar.