O número médio de aplicações de inseticidas para o controle de lagartas na primeira safra de milho passou de 3,9, em 2022/2023, para 5,2 na safra 2025/2026. Na segunda safra, a média aumentou de 2,0 para 3,4 pulverizações. Mesmo assim, lagartas foram encontradas em 29% das lavouras avaliadas.

Os dados foram consolidados pelo Rally da Safra, da Agroconsult, e apresentados em artigo técnico publicado pela Embrapa Milho e Sorgo em 4 de setembro. A análise chama atenção para a pressão de seleção e para a redução de sensibilidade da lagarta-do-cartucho, a Spodoptera frugiperda, a determinadas tecnologias de controle.

Os números têm grande impacto, mas precisam ser lidos dentro do universo do levantamento. A própria Embrapa ressalva que as estimativas dependem da metodologia, da área amostrada e dos limites de extrapolação. Não são, portanto, uma contagem individual de todas as lavouras brasileiras nem uma receita agronômica aplicável de forma automática a qualquer talhão.

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O custo estimado chegou a bilhões

Na área considerada pelo Rally da Safra, correspondente a aproximadamente 88% da área nacional, o gasto estimado com controle químico de lagartas foi de R$ 3,265 bilhões.

O levantamento também estimou perda física mínima de 737 mil toneladas de grãos por danos diretos em espigas, equivalente a aproximadamente R$ 600 milhões. Essa conta não inclui eventual perda fotossintética decorrente de ataques precoces, quando a praga compromete o desenvolvimento da planta.

O volume estimado de produtos formulados utilizados no controle foi de 57.207 toneladas. A Embrapa adverte que a comparação desse indicador exige cuidado, porque a base não discrimina todos os componentes e classes de produtos.

Por que a resistência aumenta

A adoção intensa de tecnologias com o mesmo alvo, a implantação insuficiente de refúgio e a oferta contínua de plantas hospedeiras favorecem a seleção de indivíduos resistentes. No Cerrado, a sucessão de culturas e a presença de milho em diferentes épocas podem manter uma ponte verde para a praga.

Repetir o mesmo mecanismo de ação sem monitoramento pode selecionar rapidamente os indivíduos menos sensíveis. A elevação do número de pulverizações, por si só, não garante controle e ainda aumenta custo, exposição ocupacional, consumo de combustível e impacto ambiental.

Tecnologia nova não dispensa manejo

O Brasil possui novos eventos aprovados pela Comissão Técnica Nacional de Biossegurança que podem ampliar a rotação tecnológica. Entre eles está o evento EH913, desenvolvido em parceria entre a Embrapa e a Helix, com proteína Cry1Da e mecanismo distinto de proteínas usadas anteriormente.

Isso amplia as ferramentas disponíveis, mas não autoriza tratar a semente como solução isolada. A Embrapa é direta: nenhuma tecnologia, sozinha, assegura a sustentabilidade do manejo no longo prazo.

O plano deve começar antes do plantio

Um programa de manejo integrado precisa ser construído para a realidade da fazenda e acompanhado por responsável técnico. Entre os pontos centrais estão: • escolher híbridos e tecnologias de acordo com o histórico da área; • implantar refúgio estruturado na proporção e distância recomendadas; • monitorar a lavoura desde a emergência e registrar a pressão de pragas; • definir o nível de ação antes de aplicar defensivos; • alternar modos de ação, sem confundir nome comercial com mecanismo; • integrar controle biológico, químico e biotecnológico; • eliminar plantas voluntárias e outras pontes de sobrevivência; • registrar produto, dose, horário, condições climáticas e resultado de cada intervenção.

O dado mais importante não é apenas que a média chegou a 5,2 aplicações. É que a praga continuou presente em parte relevante das áreas avaliadas. Quando o número de operações aumenta e a resposta diminui, o problema deixa de ser somente de produto e passa a ser de estratégia de manejo e resistência.

Imagem editorial original gerada por inteligência artificial para o Sudoeste em Campo.

Reportagem elaborada em 7 de setembro de 2026 com base no artigo técnico da Embrapa Milho e Sorgo e nas estimativas do Rally da Safra 2025/2026 nele apresentadas.

Reportagem em acompanhamentoEsta publicação poderá ser atualizada conforme a apuração avançar.