Pesquisadores da Embrapa Agroindústria Tropical e da Universidade Federal do Ceará desenvolveram um material obtido do caroço do açaí que apresentou efeito semelhante ao de um nanofertilizante sobre plantas jovens de milho e sorgo. O resultado abre uma frente de pesquisa para aproveitar um resíduo agroindustrial, mas ainda não representa um produto disponível para o produtor.

O trabalho foi publicado na revista científica Dyes and Pigments. Os autores produziram nanopartículas de carbono a partir do pó da semente do açaí e avaliaram sua aplicação foliar em milho da variedade BRS Gorutuba e sorgo da variedade 2502, ambas de ciclo curto e recomendadas para condições do semiárido.

No ensaio controlado, as plantas receberam três aplicações semanais. Na menor concentração testada, de 10 miligramas por litro, a taxa relativa de crescimento aumentou 24,36% no milho e 164,6% no sorgo em comparação com os controles sem o tratamento. O volume das raízes cresceu 23,11% no milho e 59,92% no sorgo.

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Esses percentuais não medem produtividade de grãos. O estudo analisou o desenvolvimento inicial das plantas em vasos, sob condições experimentais, e não o rendimento de uma lavoura comercial ao fim do ciclo. Também não demonstra que os mesmos resultados serão repetidos em diferentes solos, climas, cultivares, doses ou sistemas de manejo.

O material é formado por pontos quânticos de carbono com cerca de quatro nanômetros, produzidos por síntese hidrotermal. Segundo os pesquisadores, as partículas podem penetrar nos tecidos das folhas, participar da entrega de nutrientes e converter parte da radiação ultravioleta em luz azul, contribuindo para processos ligados à fotossíntese.

A matéria-prima chama atenção pelo volume disponível. Conforme a Embrapa, cada tonelada de frutos processados para retirada da polpa gera aproximadamente 700 quilos de caroços, que normalmente são descartados ou utilizados como combustível em caldeiras. Transformar parte desse resíduo em insumo tecnológico pode agregar valor à cadeia do açaí e reduzir passivos de descarte.

Ainda existem obstáculos antes de qualquer adoção no campo. A própria equipe aponta a necessidade de ampliar a produção da escala laboratorial para a industrial e reduzir custos de energia, purificação do material e logística de coleta da biomassa. Ensaios agronômicos em diferentes ambientes, avaliação de segurança, padronização e exigências regulatórias também integram o caminho entre um resultado experimental e um insumo comercial.

Para Goiás, a pesquisa merece acompanhamento porque milho e sorgo têm peso direto na segunda safra, na alimentação animal e na bioenergia. Dados da Secretaria de Agricultura de Goiás indicam que o estado lidera a produção nacional de sorgo, com estimativa de 2,2 milhões de toneladas na safra 2025/26. Cristalina e Rio Verde estavam entre os maiores polos municipais da cultura na referência de 2024.

O resultado científico, portanto, é promissor como ponto de partida, especialmente por unir nanotecnologia e aproveitamento de resíduo agroindustrial. Mas o produtor não deve interpretar os percentuais de crescimento como promessa de aumento de produtividade, recomendação de aplicação ou substituição imediata de fertilizantes convencionais.

Reportagem em acompanhamentoEsta publicação poderá ser atualizada conforme a apuração avançar.